sábado, 15 de junho de 2013

Atordoado Eu Permaneço Atento, Na Arquibancada Pra a Qualquer Momento, Ver Emergir O Monstro da Lagoa


Tenho acompanhado, muito menos que desejaria, os noticiários sobre os protestos nas ruas das grandes cidades brasileiras.

Estava observando e pensando sobre o tema, pensando em publicar alguma coisa aqui, quando meu amigo Márcio Maturana, jornalista, postou no Facebook o texto “O Outono da Ignorância”, de Ruth de Aquino, publicado na Revista Época. Faço minhas as suas palavras.

Acho curiosa a reação aos fatos, tanto da população que não participa dos protestos como da mídia. Os jornais, em especial os telejornais, iniciaram dando destaque ao vandalismo, praticamente ignorando, muito menos interpretando o significado destas manifestações, acreditando serem pontuais, isoladas e independentes. Serviram como porta-voz dos governantes, reforçando seus discursos de que eram ações articuladas com cunho puramente político.

Mudaram de atitude quando jornalistas se tornaram vítimas da violenta e desorientada repressão por parte da polícia. Começam a perceber que os fatos podem ser consequência da gota d'água que faltava, o peso visível que um aumento das passagens causa em um orçamento doméstico.

Virou corrida contra o tempo. Estão incomodados os políticos, tentando conter a possível bola de neve, pois sabem que, se ela se formar, irá rolar sobre suas cabeças e seus atos corporativos e corruptos. Está assustada a parte da população que durante anos e anos é pisoteada, achincalhada, roubada e explorada, e que nunca teve reação, por falta de fé ou de coragem, de ir para as ruas protestar. O fato é que, até agora, as manifestações estão ganhando corpo, crescendo.

Vamos ver se o futebol, com o início da Copa das Confederações, na função de circo, irá distrair a falta do pão.

Repasso o link:

terça-feira, 21 de maio de 2013

Quando A Atitude de Viver É uma Extensão do Coração, É Muito Mais Que Um Prazer, É Toda Carga da Emoção... É Bom Dizer: Viver, Amar Valeu


Depois de uma pausa de mais de um ano, esta semana eu voltei a escrever e a publicar no Batuque Meteórico. Fiquei surpreso, no dia seguinte, quando um amigo do trabalho me agradeceu. É que ele havia reclamado, na semana anterior, acusando-me por eu ter abandonado meu blogue.
Aquilo foi uma provocação.
Não era verdade. Eu sabia que, no momento em que as minhas palavras pedissem para serem expressas de forma escrita, eu voltaria a escrever. E assim aconteceu: Um retorno tímido, como os movimentos de quem se espreguiça após uma longa noite.
Tal ausência de textos escritos não aconteceu, contudo, por motivo que pudesse causar preocupação a quem por eles, e talvez por mim, reserva alguma simpatia. É que eu estava navegando em uma onda de dias felizes na minha vida. Eu vivia, como cantava Gal, um “Barato Total”:

“Quando a gente tá contente (...)
(...)Tudo que você disser deve fazer bem
Nada que você comer deve fazer mal
Quando a gente tá contente
Nem pensar que está contente
Nem pensar que está contente a gente quer
Nem pensar a gente quer, a gente quer
A gente quer, a gente quer é viver”

Sem nada me fazer mal, curti minha adorável onda, experimentando sensações e sentimentos nunca tão límpidos, claros e leves. Estive feliz desde antes do começo, nos primeiros olhares, nos estudados movimentos:


“Vivia a te buscar
Porque pensando em ti
Corria contra o tempo
Eu descartava os dias
Em que não te vi
Como de um filme
A ação que não valeu
Rodava as horas pra trás
Roubava um pouquinho
E ajeitava o meu caminho
Pra encostar no teu
Subia na montanha
Não como anda um corpo
Mas um sentimento
Eu surpreendia o sol
Antes do sol raiar
Saltava as noites
Sem me refazer...”


Então vieram os dias, firmando sua característica de constante mutação, nos quais nada se mantém como está. Nem parado, nem em movimento, nem bom, nem ruim, nem alegre, nem triste. Sempre oscilando, sempre mudando, veloz, veloz. São dias que ensinam que nunca se é, apenas se está.
A vantagem, nestes dias, é que nem mesmo a morte é definitiva. E, sobretudo, ela dura pouco. Lembro-me de uma amiga que, resumindo sua recente desilusão, disse:
- Mauro, eu morri aqueles três dias.
Reparem que ela não disse que esteve morta. - “Morri aqueles três dias”. - Ela se viu morrendo a todo momento e imediatamente após percebendo-se viva e assim, e também por isso, morrendo novamente, sem parar de morrer e permanecer viva, após cada sentimento gerado por cada pensamento a cada segundo.
Degustação da morte. A estranha contradição de pensar (logo, cartesianamente, existir), estar morto.
Como são devastadoras as dores emocionais!
Mas as músicas sugerem que deixemos de coisas e cuidemos da vida, senão chega (realmente) a morte ou coisa parecida, e que a vida é cigana.
Aí a gente fica só com a gente mesmo, sem abraço, sem o perfume.
É momento de deixar o que passou guardado dentro da gente e avaliar o que foi feito de nós e sabermos o que somos. Reparar as velas no cais e seguir, atento, alternando dias bons e ruins, vivendo e aprendendo. E escrevendo. Eis, portanto, o que me trouxe aqui.


"O meu coração ateu quase acreditou
Na tua mão que não passou de um leve adeus
Breve pássaro pousado em minha mão
Bateu asas e voou

Meu coração por certo tempo passeou
Na madrugada procurando um jardim
Flor amarela, flor de uma longa espera
Logo meu coração ateu

Se falo em mim e não em ti
É que nesse momento já me despedi
Meu coração ateu não chora e não lembra
Parte e vai-se embora"

(Coração Ateu – João Medeiros e Sueli Costa)




"Súbito me encantou
A moça em contraluz
Arrisquei perguntar: quem és?
Mas fraquejou a voz
Sem jeito eu lhe pegava as mãos
Como quem desatasse um nó
Soprei seu rosto sem pensar
E o rosto se desfez em pó

Por encanto voltou
Cantando a meia voz
Súbito perguntei: quem és?
Mas oscilou a luz
Fugia devagar de mim
E quando a segurei, gemeu
O seu vestido se partiu
E o rosto já não era o seu

Há de haver algum lugar
Um confuso casarão
Onde os sonhos serão reais
E a vida não
Por ali reinaria meu bem
Com seus risos, seus ais, sua tez
E uma cama onde à noite
Sonhasse comigo
Talvez

Um lugar deve existir
Uma espécie de bazar
Onde os sonhos extraviados
Vão parar
Entre escadas que fogem dos pés
E relógios que rodam pra trás
Se eu pudesse encontrar meu amor
Não voltava
Jamais"

(A Moça dos Sonhos – Chico Buarque e Edu Lobo)

domingo, 19 de maio de 2013

Tanta Coisa Que Eu Tinha A Dizer, Mas Eu Sumi Na Poeira Das Ruas


“Olá, como vai?”
Esta simples pergunta pode ser respondida em diversos níveis de profundidade, dependendo do grau de intimidade que se deseja alcançar.
Quase sempre banal, dita por educação ao encontrarmos pessoas conhecidas nos elevadores, no mercado, na praça. Obtém respostas que, em geral, seguem o padrão das palavras sem importância, mecanicamente proferidas e distraidamente ignoradas por quem perguntou.
É comum ser respondida com um vazio “tudo bem”, na maioria das vezes, mentiroso.
Apesar de gerar tal curiosa situação, esta pergunta, quando assim ocorre, é praticamente inofensiva. Não altera em nada o momento, o dia ou a vida do autor ou de quem a responde.
O drama começa quando já houve uma intimidade maior entre as pessoas que se encontram. Sempre fica a dúvida sobre o que realmente se está perguntando.
Você encontra o antigo amor que já não desperta o mesmo interesse do passado, faz a pergunta no “nível elevador”, e o outro, que sonhava com o encontro, responde do fundo do coração. O desencontro só é percebido no silêncio constrangedor que sucede ao mico.
Se as mesmas pessoas se encontram e as falas se invertem, a pessoa que pergunta sente o vazio da desilusão na resposta.
Este primeiro momento dos reencontros dá o tom do prazer que eles podem ou não proporcionar. Quando ocorre a sintonia, diz-se, mesmo anos após o último encontro, com prazerosa surpresa - “Parece que foi ontem que nos encontramos. Nada mudou.”
Quando ocorre a dessintonia, ao contrário, muitos encontros passam a ser evitados. O diálogo, neste caso, perde o calor e o sentido e, ao longo do tempo, as pessoas acabam se perdendo. Sinal fechado.


Sinal Fechado
Paulinho da Viola

Olá, como vai ?
Eu vou indo e você, tudo bem ?
Tudo bem eu vou indo correndo
Pegar meu lugar no futuro, e você ?
Tudo bem, eu vou indo em busca
De um sono tranquilo, quem sabe ...
Quanto tempo... pois é...
Quanto tempo...
Me perdoe a pressa
É a alma dos nossos negócios
Oh! Não tem de quê
Eu também só ando a cem
Quando é que você telefona ?
Precisamos nos ver por aí
Pra semana, prometo talvez nos vejamos
Quem sabe ?
Quanto tempo... pois é... (pois é... quanto tempo...)
Tanta coisa que eu tinha a dizer
Mas eu sumi na poeira das ruas
Eu também tenho algo a dizer
Mas me foge a lembrança
Por favor, telefone, eu preciso
Beber alguma coisa, rapidamente
Pra semana
O sinal ...
Eu espero você
Vai abrir...
Por favor, não esqueça,
Adeus...



segunda-feira, 12 de março de 2012

Espaço Publicitário Batuque Meteórico

O Batuque Meteórico informa que não se responsabiliza pelo texto abaixo. é um texto publicitário, cedido em troca de valor quase que simbólico à ACOMAJOR.

Rio de Janeiro, 12 de março de 2012



Em nome do cantor Manoel Jorge, a ACOMAJOR informa ao imenso público do Batuque no Coreto que consideramos repugnante o ato cometido contra nosso astro maior.
Contratamos o perito Ricardo Molina, de Campinas, para analisar o áudio da nossa última roda de samba, no intuito de provar que houve uma ação criminosa no momento em que o Cantor da Voz Aveludada havia reservado para homenagear as mulheres pelo seu Dia Internacional.
Nossa celebridade explica que havia reservado a belíssima e profunda canção “Mulher, Mulher, Mulher”, de Neguinho da Beija-Flor, para o ápice do calor da roda de samba, ou seja, vinte minutos antes da Tânia Prado, nossa síndica, pegar o microfone e falar: - “Olha só! Somos o Batuque no Coreto e a nossa roda de samba termina exatamente às vinte duas horas e dois minutos!...”.
No momento citado Manoel Jorge anunciou que faria a homenagem e cantou (degustem a bela letra):


“Alo rapazeada
Esse é o nosso samba
Olha a mulherada ai gente

Mulher mulher mulher mulher mulher mulher mulher...

Mulher mulher mulher mulher mulher mulher mulher...

A mulher, é a mulher.A mulher, é a mulher.A mulher, é a mulher.
A mulher, a mulher a mulher!

Melhor que uma mulher, só dez mulher só dez mulher
Melhor que dez mulher, só mil mulher, só mil mulher...

Uma mulher, duas mulher, três mulher, quatro mulher
Cinco mulher, seis mulher, sete mulher, oito mulher, nove mulher
É dez mulher!

Mulher mulher mulher mulher mulher mulher mulher... vaaai

Mulher mulher mulher mulher mulher mulher mulher... vaaai
(alo rapaziada, só os espada! vamo cantar!)

A mulher, é a mulher.A mulher, é a mulher.A mulher, é a mulher.
A mulher, a mulher a mulher!

Melhor que uma mulher, só dez mulher só dez mulher
Melhor que dez mulher, só mil mulher, só mil mulher...

Uma mulher, duas mulher, três mulher, quatro mulher
Cinco mulher, seis mulher, sete mulher, oito mulher, nove mulher
É dez mulher!

Mulher mulher mulher mulher mulher mulher mulher...

Mulher mulher mulher mulher mulher mulher mulher...
(é mulher)

A mulher, é a mulher, é a mulher, é a mulher
A mulher, a mulher a mulher!
A mulher... quem nao quer?

Melhor que uma mulher, só dez mulher só dez mulher
Melhor que dez mulher, só mil mulher, só mil mulher...

Uma mulher, duas mulher, três mulher, quatro mulher
Cinco mulher, seis mulher, sete mulher, oito mulher, nove mulher
É dez mulher!

Mulher mulher mulher mulher mulher mulher mulher...
(êêê beleeeza, é isso aí meu brasil!!)
Mulher mulher mulher mulher mulher mulher mulher...
(olha a murelhada aí gente)
Mulher mulher mulher mulher mulher mulher mulher...
(olha a murelhada aí maluuuuco)
Mulher mulher mulher mulher mulher mulher mulher...
(aaaaaaaaaaaaaaaaaaai)
Mulher mulher mulher mulher mulher mulher mulher...
(quanta mulher, quanta mulher)
Mulher mulher mulher mulher mulher mulher mulher...
(é isso aí meu poovo)”



Esta emocionante canção foi substituída, pasmem pelo nível tecnológico da maldade humana, por um playback onde inseriram o vocal do nosso cantor executando a inadequada para o momento “Embrulho que eu carrego”, de Alvaiade e Djalma Mafra

“Enquanto você não for eu não sossego
Você é um embrulho que eu carrego
Darei doces a Cosme e velas a Nossa Senhora
Se amanhã você me disser que vai embora

Na sua vida eu sempre fui a tábua de salvação
E você finge não entender a situação
Vai na paz, minha escurinha
Infelizmente você não pode ser minha”



Ora, bastaria reconhecer que nosso delicado cantor, um doce de pessoa, jamais cometeria gesto tão desagradável. Mas como muitos tentam aproveitar para “lançá-lo aos leões”, estamos empenhados em provar tecnicamente que houve fraude e sabotagem no equipamento do Batuque no Coreto. A polícia descarta, em princípio, a possibilidade de Agostinho Santos ser o autor, Uma vez que o “Manjubinha” se encontra em merecida viagem de férias.
Estando os salários em dia e divergências contornadas, a ACOMAJOR e toda sua exemplar e ética equipe aproveita para informar que jamais seria capaz de cometer gesto tão baixo na luta de melhorar salário ídem.

ACOMAJOR – ASSESSORIA DE COMUNICAÇÃO DE MANOEL JORGE.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

As águas vão rolar ... Deixa as águas rolar

Foi realizada na Praça São Salvador, terça de carnaval antecipando a Semana Santa, a Cerimonia do Lava Pés feita por nosso Dom Mauro Sá.....onde ele lavou os pés do André Dantas, Cecilia Mattoso, Manoel Jorge Souza e Roberta Pfeiffer.
A ACODMAC (Assessoria de Comunicação de Dom Mauro da Cuíca) informa que também estão abençoados os irmãos Carlos Alberto Carvalho Pinheiro, Niara Flor, Tânia Prado, assim como todos os amigos que foram tocados por respingos da "água benta milagrosa", que faz a cuíca chorar. Não podemos esquecer do Templo da Arquidiocese, que funciona na casa do Agostinho Santos, também 2º Batalhão do Batuque no Coreto - Setor de Infraestrutura e Enfermaria.
Jesus morreu em uma sexta e ressuscitou no sábado seguinte. Se fosse uns 40 dias antes, durante o carnaval, teria feito como eu: Morri e ressuscitei no mesmo dia, para não perder a Santa Folia! Assim seja por toda a Eternidade!
Fiquem com as Bençãos de Deus e de Dom Mauro Sá!

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Ai como é triste esta minha vida de artista: depois de de perder Vilma pra São Paulo, perder Maria Amélia pro dentista

Eu detesto perder!
Em vinte anos, sem contar com a criatividade do “gênio João”, a Beija-Flor de Nilópolis reforçou o conceito de comunidade. Sob o comando de Laíla criou comissões em vários setores da escola, distribuiu responsabilidades, reduziu egos. Teve como "piores" resultados dois quintos lugares, em 1994 e 2006, e dois quartos lugares, em 1997 e este ano.


 Durante o mesmo período,  o Clube de Regatas do Flamengo disputou dez finais da Taça Guanabara.


 Não é marmelada, é competência.


A Beija-Flor cometeu mais falhas que a Unidos da Tijuca, Salgueiro e Vila Isabel.  Parabéns para o pessoal da região da Grande Tijuca, que levou os três primeiros lugares.


Não é azar, é incompetência. Um artilheiro, em um jogo importante como uma semifinal Flamengo X Vasco, não pode perder um  gol como o inacreditável Deivid conseguiu perder.


Parabéns para o Vasco, que desde o final do Brasileirão é o melhor time do Rio.


 A Beija- Flor sabe vencer. Por isso  vai reconhecer e corrigir seus erros e virá arrebentando ano que vem. Espero que o meu Mengão aprenda a fazer o mesmo.

Sei que no futebol  as coisas são mais difíceis. Afinal, cabeças de dirigentes de futebol são iguais aos carros alegóricos do Paulo Barros: caixinhas de surpresas de onde aparecem e desaparecem idéias mirabolantes, quase sempre muito caras. 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Eis que uma vez, num dia mágico, o encontrei e ao conversarmos lhe falei sobre os reis, sobre as leis. E ele falou: A grande lição é dar amor e receber, de volta, amor.

Nature Boy
(eden ahbez)

There was a boy
A very strange, enchanted boy
They say he wondered very far
Very far, over land and sea
A little shy and sad of eye
But very wise was he

And then one day,
One magic day he passed my way
While we spoke of many things
Fools and Kings
This he said to me…

The greatest thing you'll ever learn
Is just to love and be loved in return.


Vou confessar uma coisa, que provavelmente já foi percebida pelas pessoas mais próximas ou mais observadoras: sou bastante vaidoso.
Quem bater o olho em mim saberá que não é da parte física que falo. Estou confessando a minha ... – vou me aliviar... -  meu "orgulho" em relação ao meu intelecto.
Ser vaidoso com minha parte intelectual não quer dizer que eu me ache um gênio. Apenas percebi que tenho uma ferramenta espetacular em mãos, e que, quando não tenho preguiça de usá-la, consigo realizar alguns trabalhos interessantes.
Existe, contudo, uma parte do meu ser que cobra que eu utilize cada vez melhor esta ferramenta. Para que isto se cumpra, eu devo analisar e criticar a maneira como a utilizo, descobrir as falhas e acertos, apurar as técnicas,  aperfeiçoar seu uso.
Apaixonado pelo que representam as palavras “comunicação social”, sempre digo que existem dois brasileiros vivos que eu admiro intensamente pela maneira clara como utilizam seus intelectos, um ao expor suas ideias pela fala, outro pela música e textos: Caetano Veloso e Chico Buarque.
Fico observando encantado a precisão das palavras, no tempo e significado exatos, do compositor baiano quando fala, e do carioca quando compõe. Eles possuem uma capacidade invejável de comunicação e de raciocínio, a ponto de fazerem disso suas artes, evidentemente reforçados pelo rico e excelente vocabulário que os dois possuem e, acima de tudo, inteligência para organizar ideias através das palavras.
Em busca de minhas soluções, curtindo palavras, acabei de ler um texto que me deu algumas chaves para desvendar os meus mais frequentes mistérios, e delas tento lançar mão.
No meio destas chaves está a simples distinção entre as palavras raciocinar e racionalizar.
Sempre pensei em mim como uma pessoa que usa bem o intelecto para raciocinar, mas ao analisar a distinção entre os dois termos, percebi que na verdade meu cérebro tem mecanismos que sempre procuram a racionalização dos fatos e das coisas.
A diferença entre os dois é que pelo raciocínio você pode chegar à explicação científica das coisas, e pela racionalização se chega a uma zona de conforto construída pelo intelecto para justificar de maneira verossímil as coisas e fatos. O raciocínio busca a verdade e nunca aceita definitivamente uma conclusão. A racionalização busca a conclusão, mesmo que seja necessário negar a verdade.
Em outros termos, se eu não tomar cuidado estarei sempre gerando ideologias, o que pode, pela minha cobrança moral, transformar minha vaidade em vergonha.
Outro aspecto da minha personalidade que me dá narcisicamente prazer é a certeza de possuir um conjunto de características que em sua soma me conferem, sem falsa modéstia, um certo fascínio sobre algumas poucas pessoas.
Algumas delas, mais antenadas, tentando explicar tal fascínio, o atribuem ao fato de eu ter boa parcela, se não incorporada, pelo menos claramente percebida, de uma visão feminina sobre as coisas.
Mas o que significa esta visão feminina? Acredito que o senso comum distingue, além das evidentes diferenças físicas, homens e mulheres pela maneira como encaram as coisas. O homem enxerga o mundo pelo lado da razão, a mulher pelo lado da emoção. Sendo razão e emoção dois ideais extremos raramente alcançados, pois sendo mediócre a maioria da humanidade, o que se atinge e se reforça, de um modo geral, são homens que racionalizam e mulheres que sentimentalizam.
Sentimentalizar está para a emoção assim como racionalizar está para a razão. São exemplos de como os dois ideais extremos podem ter forte interferência de “ruídos”.
A mente masculina cria racionalizações e a feminina cria sentimentalismos para justificar o mundo.
No geral, devido a inconsciente guerra dos sexos, o homem rejeita os sentimentalismos femininos e se satisfaz com sua racionalização. Já a mulher tem postura exatamente oposta.
Tendo em mãos estas ideias eu consigo explicar o fascínio que consigo exercer sobre algumas pessoas por ter aspectos que esboçam um ser ideal (apesar de estar a uma distância interestelar dele), capaz de conter aspectos racionais e emocionais, reunindo e desfazendo esta distinção intensa,  estabelecida pelos próprios interesses dos seres humanos neles mesmos, entre o que é masculino e feminino, tornando quase impossível um ser humano pleno de qualidades racionais e emocionais.
Por eu sempre tentar ser racional, com muita interferência de racionalismos e ao mesmo tempo ser emocional, com pouca interferência de sentimentalismos (pois meus filtros masculinos dispensam o que não considero o “filé”) é que minha amiga Rosa Sagaria, que me conhece intensamente há muito tempo, e por não conseguir me encaixar na sua visão crítica do que é masculino, diz que eu não sou homem, "sou pessoa".
Utilizando ainda a mesma linha de raciocínio, eu consigo entender o motivo pelo qual as mulheres que demonstram ser inteligentes mas ao mesmo tempo imensamente emocionais são as que mais me atraem. Principalmente as que demonstram emoções por mim incompreensivelmente belas e sentimentalismos capazes de me tirar do sério, abalar meu raciocínio e minha capacidade de racionalizar.
Segundo Nietzsche, “todo idealismo perante a necessidade é um engano”.
Abaixo, portanto, o ideal! Mais do que explicar e entender o mundo, eu preciso, simplesmente, amar e ser amado.

"Hoje eu vim minha nega

Como venho quando posso
Na boca as mesmas palavras
No peito o mesmo remorso
Nas mãos a mesma viola onde eu gravei o teu nome
Nas mãos a mesma viola onde eu gravei o teu nome..."

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Não se afobe não que nada é pra já

Minha grande amiga Edite Maltez, há anos vivendo na França e com pouco contato com o nosso Português, comentou um link que coloquei no Facebook - O vídeo de Chico Buarque cantando "Futuros Amantes" - e disse que não entendeu nada da letra.
O interessante é que a letra da música ilustra em suas passagens como o desuso de uma língua pode torná-la morta, por esquecimento.
Minha interpretação da letra foi a seguinte:

Futuros Amantes

(Chico Buarque)


Não se afobe, não
Que nada é pra já
O amor não tem pressa
Ele pode esperar em silêncio
Num fundo de armário
Na posta-restante
Milênios, milênios
No ar
E quem sabe, então
O Rio será
Alguma cidade submersa
Os escafandristas virão
Explorar sua casa
Seu quarto, suas coisas
Sua alma, desvãos
Sábios em vão
Tentarão decifrar
O eco de antigas palavras
Fragmentos de cartas, poemas
Mentiras, retratos
Vestígios de estranha civilização
Não se afobe, não
Que nada é pra já
Amores serão sempre amáveis
Futuros amantes, quiçá
Se amarão sem saber
Com o amor que eu um dia
Deixei pra você


 Imagino um homem falando para a sua amada que seu amor não carece de pressa, pois pode aguardar ser vivido.
O interessante que ele fala do amor como uma energia que independe de sua própria existência, pois o mesmo pode sobreviver e esperar “milênios, milênios no ar”.
Aí começa a imaginar uma paisagem futurista, na qual a cidade do Rio de Janeiro poderá estar submersa, e mergulhadores irão explorá-la, e na casa da  mulher amada irão encontrar “as cartas, o quarto, as coisas”, a sua própria alma e esconderijos (lugares secretos ou pouco usados – desvãos).
Por terem se passado milênios, a língua dos textos escritos já será uma língua morta que nem os sábios saberão decifrar "os vestígios de tão estranha e antiga civilização".
Termina confirmando que seu amor, assim como outros, permanecerá “no ar” (pois amores serão sempre “amáveis”, quer dizer, permanecerão com a capacidade de serem vividos) e o amor que ele hoje dedica à sua amada, que pela vagarosidade dela em aceitá-lo (ou por desdém) talvez nunca seja por ela correspondido, irá se manter vivo e perdido, até que futuros amantes, mesmo sem saber, acabem por encontrá-lo e finalmente vivê-lo.


E agora, querida Edite, clareou?
A nossa amizade sobreviverá à nossa existência e futuros amigos a viverão.
Vão se dar muito bem.

A lição nós sabemos de cor. Só nos resta aprender

“A gente ensina melhor o que precisa aprender”

A frase é do “Manual do Messias”, que sempre roubo pra mim e que, mais uma vez, se confirmou.
Mesmo sem estar nas melhores condições físicas, por necessidade e urgência, ontem fui ao dentista, de carro, no Largo do Machado, em pleno meio-dia.
Havia dias que não saia de casa, mas mesmo assim só percebi a beleza da tarde ao olhar pela janela do consultório, durante o período que estava aguardando a anestesia fazer efeito.
É impressionante como cariocas como eu permitem que o dia passe, que o estresse venha, que a correria do cotidiano e as falsas urgências tomem conta e a gente passe “batido” pelas belezas que o Rio de Janeiro oferece. Estas belezas podem nos energizar positivamente, podem trazer paz e tranqüilidade.
Saí do consultório querendo compartilhar o dia com alguém. Estava na “cara do gol”. A maioria dos meus amigos, frutos da roda de samba da Praça São Salvador, mora nas imediações de Laranjeiras.
Liguei de primeira para uma amiga que me atendeu e confessou, chorando, estar deprimida.
Apelei para a beleza do dia e a convidei para dar um passeio e bater um breve papo, na mureta em frente ao Bar Urca.
Seus instintos de reação falaram mais alto e ela aceitou. Falamos dos problemas, analisamos, fizemos uma lista de ações e intenções para que as coisas se resolvessem.
Conversamos sobre respiração, sobre ocultismo, sobre equilíbrio do corpo, da mente e das emoções.
Ao entrarmos no carro, voltando para casa, ela me pediu que lhe mostrasse um cd que eu havia gravado para ela, com diversos sambas que cantamos na nossa roda.
Coloquei o cd no aparelho e, após a primeira música, ela começou a pular algumas canções assim que começavam. Perguntei:

- Por que está pulando, não gosta?
- Estou pulando apenas as músicas tristes.

Fomos ouvindo as músicas alegres até o lugar onde a deixei e segui correndo para a minha casa, fugindo da “hora do rush”.
 Fiquei pensando nas pessoas que estão tristes e deprimidas. Como ajudá-las? Por que estão assim? Como chegaram a tal ponto?

Para cada pessoa uma solução.
Sei, contudo, que todas precisam de amor, carinho e atenção. E todas precisam comprovar o quanto são ou podem ser úteis.
Esta amiga é uma ótima companhia. Sempre me faz bem e é um prazer estar com ela.
Tomara que o Sol da Urca e o meu desejo pela sua felicidade tenham-lhe causado um bom efeito. Espero que tenha aprendido que deve fazer com os pensamentos, portais de sentimentos, o mesmo que fez com as músicas tristes: Não permitir que continuem sendo executados: - Pule-os, cancele-os. Esta é a lição que ela sem perceber me ensinou a ensiná-la.
Obrigado flor.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Eu Não Sou Cachorro Não!

Quase todos os dias eu recebo mensagens falando de amizade, algumas em PowerPoint. Tudo bem, curto muito o assunto, louvo a amizade.
O problema são as fotos.
Confesso que sinto agonia na medida em que clico e as imagens de pessoas abraçando cachorros vão aparecendo. Fico achando que as pessoas estão extremamente solitárias, e que a desilusão com outras pessoas as levam considerar realmente que seus cães são seus melhores amigos.
Comentei isto com minha filha e ela respondeu: - “É! Que troca! Você dá um beijo e leva uma lambida.”
Tudo bem que o comportamento dos cães é muito interessante, cativante mesmo. Acho que muita coisa boa pode ser extraída deste convívio, apesar de sempre tê-lo evitado.
Já vi cenas comoventes envolvendo cães e pessoas. Em geral, a atitude dos cães é mais louvável: a fidelidade, o companheirismo, a presença. Os seus donos os amam, muitas vezes, mas também deles reclamam muito e por eles sentem-se aprisionados! Engraçado isto! Domestica-se um animal, faz-se dele um ser dependente e depois atribui a ele os grilhões desta dependência!
Justificando a agonia das fotos, acho que os amigos que precisamos devem ser humanos. Somos animais sociais, mas temos o telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor, como foi dito inúmeras vezes no curta “Ilha das Flores”. Somos seres humanos e não apenas o desejo de liberdade nos diferencia. Temos a necessidade de amar e sermos amados, e de termos amigos. Amigos humanos.
E qual o motivo desta amizade entre humanos ser tão rara, ou tão escassamente reconhecida, mesmo sendo real? Acho que é uma questão de ruído na construção da nossa personalidade.
Queremos o melhor para nós, mas não o que há de melhor no nosso mundo. Queremos que o nosso mundo seja tão bom quanto imaginamos que ele possa ser. E idealizamos tudo: desde os amigos até as horas de cada dia. E se as coisas não acontecem ou não são como gostaríamos, ficamos contrariados e as rejeitamos ou delas reclamamos.
É uma eterna insatisfação, que azeda a vida e principalmente qualquer relacionamento, impedindo o surgimento da amizade.
Mas se você insiste em fazer do seu cão o seu melhor amigo, ao menos aprenda com ele: Minimize o fato de ser contrariado, de não ser atendido ou entendido. Fique por perto de quem ama, mesmo se aparentemente esta pessoa não esteja lhe dando a mínima e, sobretudo, seja leal.
Voltando às características humanas, converse. Palavras e peito aberto são verdadeiros imãs para atrair amigos.
E quando encontrá-los, não deixe de abraçá-los e de festejar com eles.
E tenham a coragem de enviar mensagens em PowerPoint para todo mundo, com suas fotos, orgulhosos em festa, quando quiserem falar sobre amizade.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

De repente me lembro do verde, a cor verde, a mais verde que existe. A cor mais alegre, a cor mais triste, o verde que tu vestes, o verde que vestistes, no dia que te vi, no dia que me vistes...

Ontem eu revi os olhos verdes mais lindos que já conheci em toda a minha vida.
Não são lindos apenas por sua cor, mas pelas expressões que manifestam. São olhos que riem. São também portas de entrada, para quem os olha com atenção e ousadia, para conhecer a sua maravilhosa dona.

Ela é uma eterna paixão. Lembro-me da primeira vez que a vi. Embora tendo entrado na mesma turma que eu, a recebi como “caloura”. Eu já estava no meu segundo ano de universidade, onde iniciei na Faculdade de Física e depois me transferi, no ano seguinte, para a faculdade de Meteorologia.

Bastou vê-la para escolhê-la como alvo da minha aproximação, das minhas brincadeiras e cantadas. Levei assim todo aquele primeiro dia de aula.
O incrível foi que, no dia seguinte, eu simplesmente me dei conta que não conseguia identificá-la entre as demais colegas. Não sabia como era o seu cabelo, seu corpo, seu jeito. Só consegui reconhecê-la quando vi seus olhos.

Tornamo-nos grandes amigos, tentamos um curtíssimo namoro que não foi adiante, assim como não fomos adiante com a faculdade de Meteorologia. Eu fui estudar Jornalismo, ela Geografia.

Levamos vinte e cinco anos para nos reencontrar. Foi como eu tivesse voltado no tempo através de seus olhos. Conversamos por horas e horas. Falamos do que aconteceu neste intervalo desde o nosso último encontro. Surgiu então a gratificante e indescritível sensação do reconhecimento.

Reencontrei a bela e apaixonante amiga. Voltei para casa e passei a noite como se tivesse visto um anjo. Não uma figura santificada, angelical, digna de auréolas e asinhas.

Um anjo bastante humano que me falou e me ouviu falar sobre as pessoas que nós amamos, sobre as que não conseguimos amar e as que deixamos de amar.

Falamos de nós. Rimos de nós como sempre fizemos.

Aliás, ninguém neste mundo jamais conseguiu me acompanhar com tanta intensidade e sincronia nas minhas “risadas de barriga” como ela: Uma linda mulher intensamente madura de olhos intensamente verdes.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Arriscando tudo por uma miragem, pois sabem que há uma fonte oculta nas areias...

Após anos tomados de mim mesmo pela sonolência a qual me permiti, distribuindo culpas nas pessoas e na rotina, tenho vivido há meses a sensação de viver cada vez mais plenamente.

No início atribui tal sensação à liberdade, ao domínio do tempo, das ações. Agora chegou a hora de atribuir e agradecer o grande bem-estar às pessoas que conheci e aos velhos amigos de quem me reaproximei.

Outro dia perguntei a uma amiga se ela poderia encontrar uma explicação ao fato de eu dar tanta importância às pessoas, fazendo delas parte importantíssima da minha vida.
Uma das explicações plausíveis foi o desejo da recíproca. Outra do prazer narcísico de ser amado por quem eu amo e trato bem.

O fato é que eu não consigo ser diferente. Não vejo motivos para conter o desejo de abraçar, de fazer carinho, de tratar bem. Não temo declarar amor e prazer pela companhia.

Há um temor entre as pessoas de declararem amor por outras. Acho que a idéia é o conceito falso de que isto fragiliza. Não acredito nisto. Acho que é bom falar e acho incrível que existam pessoas que se incomodam em ouvir e sentir que são amadas.

É bom demais ter festa em cada encontro. Perceber que cada abraço se transforma em mais um laço de ternura, cada olhar trocado mais prolongado é uma permissão concedida para que um se aproxime mais do outro, se torne mais amigo.

Quando se percebe em um ambiente assim, o prazer é tão grande que a gente percorre os olhos e percebe detalhes: Da amiga que desde cedo dedicou seu dia para te receber, trabalhou, preparou pratos, arrumou a casa, perfumou o ambiente. 

É dedicação, é entrega, é o melhor presente que se pode ganhar.

Belas músicas, em geral, me emocionam. Mas eu levo um tempo e carece de um ritual para que eu seja assim atingido por elas. Tenho que relaxar, dedicar atenção, procurar silêncio e concentração para sentir a música.

Ontem aconteceu diferente. A alegria e o prazer de receber amigos em sua casa foram tão grandes que levou uma amiga a se levantar de sua cama, onde sofria com dores nos braços por conta de tendões e músculos adoecidos, ir ao piano e tocar maravilhosamente músicas lindíssimas, entre elas “A Miragem”, de Marcus Viana.

O presente desta amiga foi superar a dor pelo prazer de levar aos nossos corações a beleza profunda da arte que ela consegue fazer com seus doloridos dedos. Isto não se faz à toa. Somente por amor.

“Somente por amor
A gente põe a mão
No fogo da paixão
E deixa se queimar
Somente por amor...
Movemos terra e céus
Rasgando sete véus
Saltamos do abismo
Sem olhar prá trás
Somente por amor
E a vida se refaz...”

Obrigado amiga, pelo carinho e pela lição de amor.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Longe Se Vai Sonhando Demais. Mas Onde Se Chega Assim?

Outro dia eu ouvi uma pessoa associando seus sonhos com fatos que os sucedem. Ela dizia, por exemplo, que todas as vezes que sonha com cobras acontece a morte de alguma pessoa conhecida.  
Eu, em silêncio, ouvia e pensava: - Bobagens!
Dispersou-se o momento e meus pensamentos não foram além daquela crítica. Mas agora, diante do teclado do computador, enquanto assistia o DVD Tambores de Minas e ouvia a canção “Caçador de Mim”, de Milton Nascimento, me reportei, por um segundo, àquele instante.

Para que servem os sonhos, afinal? Não tenho nenhum conhecimento técnico sobre isto, mas sei, por experiência e pelo senso comum, que o sono é reparador. Ele descansa nossos corpos, pausa nossos cérebros dos raciocínios e reações necessárias a cada momento enquanto estamos despertos. Mas por que sonhar? Há algum benefício nos sonhos?

Existem sonhos que começam tranquilos e assim terminam. Em geral o efeito que causam em nós é um despertar também tranquilo. Outros sonhos iniciam bruscamente, com situações terríveis e agonizantes de perigo ou pavor, de perda ou lamento. São pesadelos que nos despertam imediatamente, no meio da noite. O cérebro exige este despertar, já que o sono não está cumprindo sua função. Aí a gente levanta, vai à janela ou à geladeira, percebe que ainda é cedo, volta para a cama e dorme, aí sim, obtém o sono reparador necessário.
Há, no entanto, sonhos que nos confundem. Começam em verdes campos, em reinos de felicidade onde tudo é alegre e feliz, onde as pessoas são gentis, fraternas e equilibradas. É o sonho dentro do sonho. É um momento tão delicioso que o cérebro se permite relaxar, entrega-se às delícias do sono, entrega nosso corpo, nos entrega, enfim, inteiros para aquele paraíso.
Aí vem a cilada. Desprovido das defesas do cérebro ficamos sujeitos às mudanças de rumo que podem acontecer nos sonhos. Basta um momento, um segundo e tudo se transforma em pesadelo. Tudo perde a beleza, o paraíso se desfaz inexplicavelmente. E sofremos com este sonho enganador, pois o cérebro demora a retornar ao comando, e quando o faz tem imenso trabalho em separar o que ainda é sonho e o que é realidade. Despertamos lentamente e os dias, algumas vezes as semanas, que o seguem são tensos, pesados, tristes. Sofremos pelo que acreditamos ter perdido, sem perceber que nada perdemos, pois nada tivemos. Era sonho. Lamentamos, sofremos e tememos o que aconteceu no sonho e nos entristeceu, ignorando que não há motivo para tal, pois era apenas um pesadelo.
Então para que sonhar? Se o sono serve para nos esvaziar do cansaço do dia anterior, por qual motivo ele nos permite entrar em um estado que pode nos esgotar e arrasar nos dias posteriores?

Há especialistas que afirmam que sonhamos todas as noites durante dormir, várias vezes em cada uma delas.  O que acontece é que, no geral, não nos lembramos dos sonhos. Acho que isto não deveria ter exceção: Deveríamos não sonhar ou apenas sonhar durante o sono e ao final dele tudo ser esquecido. A vida desperta e real não deveria nem merecia ser influenciada,  confundida,  alterada ou desviada pelas irrealidades dos sonhos, sejam eles considerados bons ou ruins.

Então, o grande legado do sono que perduraria após o despertar seria o raro e reparador silêncio, e uma capacidade imediata de detectar e esquecer o que nunca foi real. Isto nos ajudaria a reduzir nossos enganos ou pelo menos nos levaria a aprender imediatamente com eles, sem que fosse necessário gastar tempo, trabalho e sofrimento,  distinguindo  e separando as vozes que vem da razão das que surgem do coração.

PS.: Sonhar não custa nada? Depois que passou a pensar assim a Mocidade Independente de Padre Miguel nunca mais ganhou o carnaval. 

Caia na real, Mocidade, enquanto há tempo.


domingo, 11 de setembro de 2011

Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso

Existe uma parte do nosso ser que a gente luta o tempo todo para manter adormecida, oculta, calada. Esta parte é imensa, equivale à porção invisível de um iceberg.
O que mostramos é a superfície sobre a qual temos certo domínio de atuação e utilizamos tal domínio para criar uma imagem que acreditamos ser a melhor aceita pelas demais pessoas e por nós mesmos. Esta pessoa que gostaríamos de ser e chamamos de “nós”, é na verdade a negação do que somos, pois a nossa parte mais interna é tão profunda, misteriosa, densa, de difícil compreensão, que nos sentimos mais confortáveis vivendo na superfície, deixando trancadas as portas deste nosso desconhecido porão.
Tememos esta nossa parte porque, de um modo geral, só entramos em contato com ela em momentos de crise e de dor. Aí surge o equívoco, pelas dificuldades que trazem estes momentos, de que ela é ruim, que é o lugar onde moram nossas dores, que é um monstro que deve permanecer encarcerado. Mas se nos piores momentos ela se apresenta, é porque nossas respostas se encontram nela. É nela que verdadeiramente estamos. Nós somos esta parte.
Nela habita a nossa essência,  o que torna cada um de nós um ser único no universo.
Em situações raras, duas pessoas se encontram, se comunicam e se conhecem diretamente neste nível mais profundo, sem passar pela superfície. E quando retornam à superfície, estas pessoas  encontram no outro um ser estranho, difícil de relacionar e identificar como a pessoa conhecida na essência.
E tais pessoas se perdem em suas superficialidades, mantém-se em seus rasos papéis e se dizem felizes, sempre morrendo de medo de que lhe caiam as máscaras.
E se cercam de pessoas e coisas efêmeras e fúteis, e depois não conseguem entender como podem, mesmo entre tantos, se sentirem tão sós e tão vazios.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Quando o Sol bater na janela do teu quarto

Hoje eu acordei com a luz dos primeiros raios de Sol invadindo meu quarto por uma fresta da cortina. Resisti um pouco mas me levantei da cama e abri a janela... do Facebook!

Desde a semana passada, após ouvir críticas aos sites de relacionamentos, passei a prestar mais atenção no meu comportamento diante deles. A analogia entre janelas das nossas casas e sites da Internet é tão precisa que Bill Gates, há muito, teve a sacada de batizar o seu sistema operacional com o nome de Windows.

Eu costumo elogiar o Facebook. O site dá oportunidade da troca de informações diretas, através do bate-papo, e também permite que se compartilhe músicas, vídeos, imagens e textos de maneira rápida e ampla. E é possível realizar toda esta troca de maneira restrita, pessoa a pessoa, sem que as mensagens caiam no conhecimento dos demais “amigos”. Fascinante.

Agora me pergunto se eu, alguma vez na vida, fiquei por tantas horas debruçado na janela, como fico diante do computador. Claro que não. E todas as vezes que eu vou à janela é para tentar ver algo que me despertou interesse. Saber o que está acontecendo ao alcance dos olhos, permitir uma surpreendente visão do que é belo, novo ou simplesmente ver o tempo passar.

Mas o Facebook, além de janela, é também vitrine. A gente fica exposto, na medida que se permite, ali. Se não tivermos isto em mente estaremos sujeitos a uma superexposição que pode reverter em danos. Como tudo que “dá barato”, que “dá onda”, deve ser usado com moderação.

E nunca deve substituir os prazeres do encontro pessoal, do abraço, do bate-papo olhando nos olhos, dos jantares, das cervejas e dos cafés.

Vou dar um tempo. Gerarei mais tempo para a leitura de livros, irei mais à locadora para pegar DVDs. Comprarei uma bicicleta, irei mais à feira, curtirei mais shows e conhecerei novas rodas de samba. Farei mais amigos. Tomarei muitos chopes com eles e irei adicioná-los, por fim, ao meu Facebook, para que saibam, através dele, que eu escrevi novas postagens no Batuque Meteórico.

E assim gira o mundo.

sábado, 23 de julho de 2011

Tanta escuridão pode tornar em vão a luz que acendeu fora de ocasião

Outro dia, na Praça São Salvador, eu e uma amiga travamos um curto diálogo após minha recusa em aceitar a caipirinha que ela me oferecia:

- vai dirigir? – perguntou.
- Não. É que hoje eu estou curtindo minha lucidez.

Acontece algumas vezes. É que eu tenho consciência que existem muitas coisas capazes de interferir no meu mais amplo raciocínio. Algumas delas são bem mais dissimuladas ou ocultas que caipirinhas, mas acrescentar a estas coisas alguns mililitros de cachaça no momento errado é pedir para cair numa cilada.

Estados emocionais como paixão, encantamento ou ciúmes são craques nisto. A gente fica meio bobo quando está encantado por alguém. Se o encantamento atinge a fase da paixão, aí mesmo é que o discernimento fica comprometido.

Contudo, encantamento e paixão dão barato, geram a maior onda. É bom sentir enquanto dura a festa. Quando termina é que vem a pancada: A ressaca é igual a um trator te atropelando. Quase óbito.

Aí tem que ficar inventando artifícios para sobreviver. Tenta esquecer, tirar da cabeça. Mas a única coisa que consegue esquecer é da velha lição que diz que só o vagaroso tempo é quem vai curar a maldita saudade dos tempos da alegria.

Pior quando a gente acha que está curado, inteiro, pronto para outra e do nada sente no ar um perfume que lembra o cheiro dela, ou encontra na memória da câmera uma foto, um retrato da flor. Dizem que a gente vive e morre uma só vez. A exceção é quando se morre de paixão: A gente morre varias vezes e ainda vira masoquista, igual criança que não sabe nadar quando vê um “toboágua”: Quer voltar para morrer de novo.

Outra noite eu cheguei cansado e decidi dormir cedo. Fiquei procurando algo para ler e acelerar a chegada do sono. Peguei um livro que desejo reler há anos. Abri e li na última página:

"(…) tudo o que estava escrito neles era irrepetível desde sempre e por todo o sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda oportunidade sobre a terra”.         
(Cem Anos de Solidão – Gabriel García Márquez)

A frase do livro se ligou a outra, que me veio à lembrança:

“Quero te contar um segredo agora. Eu vejo gente morta, andando por aí como gente comum. Uma não vê a outra. Elas só vêem o que querem ver. Não sabem que estão mortos. Estão em toda parte.”
(Coler Sear, o menino do filme O Sexto Sentido)

Eis aqui outras características dos que morrem de paixão: Eles também só vêem o que querem ver. E estão por toda parte.

Conclui que devo fazer parte das estirpes citadas em “Cem Anos de Solidão”, pois pessoas, coisas e oportunidades por mim perdidas são sempre, por mais que eu tente remover montanhas por elas, inevitavelmente irrecuperáveis.

Deitei e dormi feito pedra. E curti isto.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Felicidade é uma cidade pequenina, uma casinha, uma colina, qualquer lugar que se ilumina quando a gente quer amar

Minha amiga Sandra Costa e eu conversávamos outro dia sobre o filme Meia-Noite em Paris, de Woody Allen. Ela falou que esperava mais do filme, devido a expectativa gerada nos comentários e críticas. E eu disse que comigo aconteceu o contrário. Eu desconhecia opiniões e fiquei surpreso com o filme, que me agradou. Não é um clássico, nem sei se é um excelente filme diante da crítica. Mas fala da insatisfação com o tempo em que se vive, da esperança de felicidade futura tendo referência "eras de ouro" - tempos passados nos quais não vivemos e acreditamos terem sido melhores que o presente.

Hoje Sandra enviou este texto, da jornalista Leila Ferreira. Tem a ver com o personagem Gil, do filme, que projeta sua felicidade a partir do sonho de se tornar um grande escritor, e que se transporta, dentro da realidade fantástica do autor, literalmente para o passado e encontra ídolos que naqueles tempos viveram.
Com o tempo Gil acaba por caindo na realidade e descobre que há felicidade em caminhar sob chuva, nas ruas de Paris, ao lado de uma mulher bem real.

Então: Ctrl C + Ctrl V - Eis o texto de Leila Ferreira, que por coincidência cita Paris:


A felicidade é a soma das pequenas felicidades. Li essa frase num outdoor em Paris e soube, naquele momento, que meu conceito de felicidade tinha acabado de mudar. Eu já suspeitava que a felicidade com letras maiúsculas não existia, mas dava a ela o benefício da dúvida.

Afinal, desde que nos entendemos por gente aprendemos a sonhar com essa felicidade no superlativo. Mas ali, vendo aquele outdoor estrategicamente colocado no meio do meu caminho (que de certa forma coincidia com o meio da minha trajetória de vida), tive certeza de que a felicidade, ao contrário do que nos ensinaram os contos de fadas e
os filmes de Hollywood, não é um estado mágico e duradouro.

Na vida real, o que existe é uma felicidade homeopática, distribuída em conta-gotas. Um pôr-de-sol aqui, um beijo ali, uma xícara de café recém-coado, um livro que a gente não consegue fechar, um homem que nos faz sonhar, uma amiga que nos faz rir. São situações e momentos que vamos empilhando com o cuidado e a delicadeza que merecem alegrias de pequeno e médio porte e até grandes (ainda que fugazes) alegrias.

'Eu contabilizo tudo de bom que me aparece', sou adepta da felicidade homeopática. 'Se o zíper daquele vestido que eu adoro volta a fechar (ufa!) ou se pego um congestionamento muito menor do que eu esperava, tenho consciência de que são momentos de felicidade e vivo cada segundo.

Alguns crescem esperando a felicidade com maiúsculas e na primeira pessoa do plural: 'Eu me imaginava sempre com um homem lindo do lado, dizendo que me amava e me levando pra lugares mágicos Agora, se descobre que dá pra ser feliz no singular:
'Quando estou na estrada dirigindo e ouvindo as músicas que eu amo, é um momento de pura felicidade. Olho a paisagem, canto, sinto um bem-estar indescritível'.
Uma empresária que conheci recentemente me contou que estava falando e rindo sozinha quando o marido chegou em casa. Assustado, ele perguntou com quem ela estava conversando: 'Comigo mesma', respondeu. 'Adoro conversar com pessoas inteligentes'.

Criada para viver grandes momentos, grandes amores e aquela felicidade dos filmes, a empresária trocou os roteiros fantasiosos por prazeres mais simples e aprendeu duas lições básicas: que podemos viver momentos ótimos mesmo não estando acompanhadas e que não tem sentido esperar até que um fato mágico nos faça felizes.

Esperar para ser feliz, aliás, é um esporte que abandonei há tempos. E faz parte da minha 'dieta de felicidade' o uso moderadíssimo da palavra 'quando'. Aquela história de 'quando eu ganhar na Mega Sena', 'quando eu me casar', 'quando tiver filhos', 'quando meus filhos crescerem', 'quando eu tiver um emprego fabuloso' ou 'quando encontrar um homem que me mereça', tudo isso serve apenas para nos distrair e nos fazer esquecer da felicidade de hoje.

Esperar o príncipe encantado, por exemplo, tem coisa mais sem sentido? Mesmo porque quase sempre os súditos são mais interessantes do que os príncipes; ou você acha que a Camilla Parker-Bowles está mais bem servida do que a Victoria Beckham?

Como tantos já disseram tantas vezes, aproveitem o momento, amigos. E quem for ruim de contas recorra à calculadora para ir somando as pequenas felicidades.

Podem até dizer que nos falta ambição, que essa soma de pequenas alegrias é uma operação matemática muito modesta para os nossos tempos. Que digam.

Melhor ser minimamente feliz várias vezes por dia do que viver eternamente em compasso de espera.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Atravessei o Largo da Carioca, o bueiro estava quente e explodiu na minha cara! Ala la Ô...

A gente mal se livrou das balas perdidas e começou a onda dos bueiros perdidos. Em breve o noticiário informará assim:

Rio de Janeiro - Blindados da Marinha tentam conter a intensa troca de bueiros entre as duas facções concessionárias, a Light e a Rioluz. Foram identificados alguns modelos de bueiros de uso exclusivo das forças armadas
O governo do estado afirma que não houve dano significativo após as explosões, mas ficou constatado que existem pelo menos 423 bombeiros moralmente feridos e a imagem do Governador totalmente queimada.
Deprimido, Cabral vai passar 15 dias na mansão de Mangaratiba, longe das ruas “embueiradas” do Rio.
Apesar dos problemas o Governador do Rio já anunciou que a Empresa Delta, que vencerá a licitação para a recuperação das ruas e avenidas danificadas ou sob ameaça de novas explosões de bueiros, já iniciou as obras no submundo, digo, subsolo, e até já constatou que o valor previsto das obras é insuficiente, pois não previam que terão que conter as portas do inferno, que assim como nossos presídios, está lotado, quase jogando cristão pelo ladrão.

Chupa esta manga!
Um abraço!
Mauro Sá

A Praça e a Cachaça

Uma garrafa de cachaça levada para a Praça São Salvador gerou pelo menos duas situações engraçadas, envolvendo Haroldo, o morador de rua que vive ali e adora dar uns goles.

A primeira foi no momento imediato em que Tânia nos oferecia a bebida em pequenas doses. Haroldo se aproximou e ficou ao lado dela. Sua silenciosa expressão dizia tudo. Ele olhava para ela com cara de “me dá aí!”.
Comovida, a “Síndica da Praça” decidiu ceder-lhe um pouco da valiosa cachaça, explicando, contudo:

- Olha Haroldo, presta a atenção: Isto não é quaquer cachaça! Isto é “Nega Fulô”!
 
A expressão de satisfação do Haroldo ao receber a dose da cachaça não escondeu a outra, que lhe diviviu a face. Seu rosto dizia claramente: - “Nega Fulô? Caguei!”.
 
Minutos depois chega à Praça o Alex, “Maluco Problema”. Surgiu fazendo escândalo, gritando de longe. No caminho, caiu sozinho. Levantou e aproximou-se, pedindo cachaça. Aí o Haroldo se adiantou:
 
- Você não! Você não sabe beber! Caiu sozinho e fica dizendo que tropeçou! Tá fora!
 
Inacreditável, hilário e profundo.
Não existe quem, em algum momento, não se sinta superior a um semelhante.
 
Haja cachaça.

Um abraço!
Mauro Sá


Do Cauim Ao Efó, Com Moça Branca, Branquinha
 

Samba-enredo do Salgueiro em 1977
(Geraldo Babão e Renato de Verdade)

A moça branca é amiga
Não há quem diga que não tenha valor
Só por ser tão boa
Vive assim à toa, sem querer se impor
Ela dá coragem, dá vantagem
Dá inspiração
Não admite
Falta de apetite numa refeição (bis)
No Salgueiro tem

Tem gente que bebe pra esquecer ê ê
Tem gente que sabe beber e comer ê, ê, ê, ê (bis)

Churrasco no Sul
Buchada no Norte
Tutu à milanesa
Com pinga da forte
Comendo Efó
Jerimum com jabá
Feijoada, peixada
Ou o bom vatapá
Tem que ter cachaça

Ela não pode faltar...
... E depois quindim (bis)
E doce de elite com amendoim
A moça branca



Essa negra fulô
(Jorge de Lima)

Ora, se deu que chegou
(isso já faz muito tempo)
no bangüê dum meu avô
uma negra bonitinha,
chamada negra Fulô.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
— Vai forrar a minha cama
pentear os meus cabelos,
vem ajudar a tirar
a minha roupa, Fulô!

Essa negra Fulô!

Essa negrinha Fulô!
ficou logo pra mucama
pra vigiar a Sinhá,
pra engomar pro Sinhô!

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá)
vem me ajudar, ó Fulô,
vem abanar o meu corpo
que eu estou suada, Fulô!
vem coçar minha coceira,
vem me catar cafuné,
vem balançar minha rede,
vem me contar uma história,
que eu estou com sono, Fulô!

Essa negra Fulô!

"Era um dia uma princesa
que vivia num castelo
que possuía um vestido
com os peixinhos do mar.
Entrou na perna dum pato
saiu na perna dum pinto
o Rei-Sinhô me mandou
que vos contasse mais cinco".

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
Vai botar para dormir
esses meninos, Fulô!
"minha mãe me penteou
minha madrasta me enterrou
pelos figos da figueira
que o Sabiá beliscou".

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
(Era a fala da Sinhá
Chamando a negra Fulô!)
Cadê meu frasco de cheiro
Que teu Sinhô me mandou?
— Ah! Foi você que roubou!
Ah! Foi você que roubou!

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

O Sinhô foi ver a negra
levar couro do feitor.
A negra tirou a roupa,
O Sinhô disse: Fulô!
(A vista se escureceu
que nem a negra Fulô).

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê meu lenço de rendas,
Cadê meu cinto, meu broche,
Cadê o meu terço de ouro
que teu Sinhô me mandou?
Ah! foi você que roubou!
Ah! foi você que roubou!

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

O Sinhô foi açoitar
sozinho a negra Fulô.
A negra tirou a saia
e tirou o cabeção,
de dentro dêle pulou
nuinha a negra Fulô.

Essa negra Fulô!
Essa negra Fulô!

Ó Fulô! Ó Fulô!
Cadê, cadê teu Sinhô
que Nosso Senhor me mandou?
Ah! Foi você que roubou,
foi você, negra fulô?

Essa negra Fulô!