quinta-feira, 29 de maio de 2014

Será uma maldição? Não sei.



A letra da música O que será, composta por Chico Buarque em três versões para o filme Dona Flor e seus dois maridos, de Bruno Barreto, é, entre todos os textos que já li, a mais perfeita descrição da paixão que conheço.
Em à flor da pele, a versão que trata do desejo emocional, mais profundo e dilacerador, direto no coração. Descreve não a ciência ou a consciência, avessas à paixão. Ao contrário, através de perguntas (o que será...?) relaciona todos os efeitos dentro de tantas dúvidas e interrogações, que acompanham todo o sentimento.
Assim, tenta entender:


O que será que me dá que me bole por dentro? Que brota à flor da pele, e que me sobe às faces e me faz corar? E que me salta aos olhos a me atraiçoar? E que me aperta o peito e me faz confessar o que não tem mais jeito de dissimular e que nem é direito ninguém recusar? E que me faz mendigo, me faz implorar? O que não tem medida, nem nunca terá. O que não tem remédio, nem nunca terá. O que não tem receita.

O que será que dá dentro da gente que não devia? Que desacata a gente, que é revelia? Que é feito uma aguardente que não sacia? Que é feito estar doente de uma folia? Que nem dez mandamentos vão conciliar? Nem todos os ungüentos vão aliviar? Nem todos os quebrantos, toda alquimia, que nem todos os santos, será que será? O que não tem descanso, nem nunca terá. O que não tem cansaço, nem nunca terá. O que não tem limite.

O que será que me dá que me queima por dentro? Que me perturba o sono? Que todos os tremores me vêm agitar? Que todos os ardores me vêm atiçar? Que todos os suores me vêm encharcar? Que todos os meus nervos estão a rogar?
O que será que será que todos os meus órgãos estão a clamar? E uma aflição medonha me faz implorar?
 O que não tem vergonha, nem nunca terá. O que não tem governo, nem nunca terá. O que não tem juízo.

Em outro nível o desejo carnal, do sexo, forte e poderoso, pulsando em todos os corpos, desde os mais toscos até os mais santos, é tratado na versão à flor da terra:
O que será que andam suspirando pelas alcovas? Que andam sussurrando em versos e trovas? Que andam combinando no breu das tocas? Que anda nas cabeças, que anda nas bocas? Que andam acendendo velas nos becos? Que estão falando alto pelos botecos? Que gritam nos mercados? Que com certeza está na natureza, será que será? O que não tem certeza, nem nunca terá. O que não tem conserto, nem nunca terá. O que não tem tamanho.

O que será que vive nas ideias desses amantes? Que cantam os poetas mais delirantes? Que juram os profetas embriagados? Que está na romaria dos mutilados? Que está na fantasia dos infelizes? Que está no dia a dia das meretrizes, no plano dos bandidos, dos desvalidos?

...Em todos os sentidos (Significados? Sentidos físicos? Cabem os dois.)?
 Será que será o que não tem decência, nem nunca terá? O que não tem censura, nem nunca terá? O que não faz sentido?

O que será que todos os avisos não vão evitar? Porque todos os risos vão desafiar? Porque todos os sinos irão repicar? Porque todos os hinos irão consagrar? E todos os meninos vão desembestar? E todos os destinos irão se encontrar? E mesmo o Padre Eterno que nunca foi lá olhando aquele inferno, vai abençoar?

O que não tem governo, nem nunca terá. O que não tem vergonha, nem nunca terá. O que não tem juízo.

E ainda a versão especial do amor entre Dona Flor e Vadinho, lindamente cantada por Simone, adequada aos dois personagens, na qual Dona flor inicia questionando o que faz com que Vadinho seja como é (O que será que lhe dá?). Depois questiona, pensando na paixão de um modo geral, conclui, como em todas as versões, que seja o que for, não tem e nem nunca terá governo, vergonha e juízo:

Tema de Abertura do filme Dona Flor e Seus Dois Maridos

E todos os meus nervos estão a rogar

E todos os meus órgãos estão a clamar

E uma aflição medonha me faz implorar

O que não tem vergonha, nem nunca terá

O que não tem governo, nem nunca terá

O que não tem juízo



O que será que lhe dá

O que será meu nego, será que lhe dá

Que não lhe dá sossego, será que lhe dá

Será que o meu chamego quer me judiar

Será que isso são horas dele vadiar

Será que passa fora o resto do dia

Será que foi-se embora em má companhia

Será que essa criança quer me agoniar

Será que não se cansa de desafiar

O que não tem descanso, nem nunca terá

O que não tem cansaço, nem nunca terá

O que não tem limite



O que será que será

Que dá dentro da gente, que não devia

Que desacata a gente, que é revelia

Que é feito uma aguardente que não sacia

Que é feito estar doente de uma folia

Que nem dez mandamentos vão conciliar

Nem todos os unguentos vão aliviar

Nem todos os quebrantos, toda alquimia

E nem todos os santos, será que será

O que não tem governo, nem nunca terá

O que não tem vergonha, nem nunca terá

O que não tem juízo.

domingo, 25 de maio de 2014

Eu sei Que Embaixo Desta Neve Mora Um Coração



Meu tempo é curto e meu mundo é hoje.
 Movo-me, contudo, sem pressa, pois sei que não há objetivo a ser alcançado senão a plena sensação de viver e registrar, em todas as dimensões do meu ser, cada experiência vivida como aprendizado para o meu crescimento.
Sem perder os movimentos por medos de possíveis dores, aprendi que a corrente da vida torna-se prazerosa a quem nela ousa se soltar.
Não espero nada. Criar expectativas significa tentar aprisionar a vida dentro de uma ideia, de um desejo que construímos para não sermos surpreendidos pelo novo, que pode não nos agradar.
Ao acordar, apenas abro os olhos e percebo a luz sobre as coisas e pessoas as quais ela ilumina, como se o Sol quisesse indicá-las para mim, como faz neste momento, iluminado surpreendentemente um belo brilhante que partindo a luz explode em sete cores, revelando então os sete mil amores...


O TEMPO E AS JABUTICABAS
(Texto de Rubem Alves)



Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquela menina que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ela chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.
Não tolero gabolices. Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos.
Não participarei de conferências que estabelecem prazos fixos para reverter a miséria do mundo. Não quero que me convidem para eventos de um fim de semana com a proposta de abalar o milênio.
Já não tenho tempo para reuniões intermináveis para discutir estatutos, normas, procedimentos e regimentos internos.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Não quero ver os ponteiros do relógio avançando em reuniões de 'confrontação', onde 'tiramos fatos a limpo'.
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.
Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: 'as pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos'.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados,
e deseja tão somente andar ao lado do que é justo.
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.'
O essencial faz a vida valer a pena.